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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Goiânia Promove Concerto de Violão!


Nos dias atuais, praticamente toda capital e grande parte das cidades pólo do Brasil se tornaram pontos de articulação de projetos que levam os nomes das leis de incentivo à cultura. Deste modo, Goiânia se faz presente, se igualando a grandes centros culturais como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de janeiro. Uai! Já? Como assim? ?? Vou explicar. Através destas leis (Municipais, Estaduais e Federais) grandes artistas do Brasil e do mundo pisam nos palcos dos comedores de pequi, nos pampas, na terra dos criadores do acarajé, buchada de bode e por aí vai. Em Uberlândia, minha terra natal, tem duas séries de concerto. É, duas. Com isso, tive acesso direto aos grandes nomes deste circuito cultural. Fabio Zanon, Antonio Menezes, José Carlos Cocarelli, Arnaldo Cohen, Irmãos Assad, vários extrangeiros ... ...
Antes dessas leis, a música de tradição clássica sobrevivia através de filantropia. O próprio Villa-Lobos foi bancado por famílias abastadas até sua fama e glória internacional.
Mas, voltando ao assunto, Goiânia é nossa terra e nosso lugar, é aqui que aconteceu o concerto que vou reportar e é aqui que se alimenta uma "cena artística e cultural", a qual estarei fazendo minhas obervações.

A apresentação dos violonistas ALUÍSIO LAURINDO JR. e NÍCOLAS DE SOUZA BARROS se deu através do Projeto Sonora Brasil. O objetivo deste é trazer ao público um panorama da obra violonística desenvolvida no Brasil nas últimas décadas. O projeto se realiza através de intérpretes de obras das cinco regiões do país.



O CONCERTO


Empolgante. Quem compareceu teve a grande oportunidade de apreciar obras que violonistas do mundo inteiro gravam e obras regionais. Podemos destacar então dois tipos de repertório: UNIVERSAL e BRASILEIRO (amapaence / carioca)

O violonista Aluísio laurindo JR. foi responsável por abrir as cortinas de seu Estado e sua gente. Simplesmente fantástico!!! O cara é ótimo divulgador de sua terra e suas tradições. Toca muito bem e se não fosse através de seu talento, eu nunca imaginaria que dentro das fronteiras deste lugar se faz música de violão solista e mais: ALTO NÍVEL ARTÍSTICO!

O experiente Nícolas de Souza Barros é multi instrumentista e goza de técnica que se compara a grandes concertistas internacionais. O que ouvi de mais especial foi sua interpretação, especialmente as obras de Heitor Villa-Lobos e Ernesto Nazareth.
Sua apresentação teve comunicação expressiva e o público teve o prazer de ouvir vários detalhes acerca do que ouvira. Ótimo! Um violonista desta envergadura não pode simplesmente chegar e tocar, pois o público não é formado apenas por amadores e estudantes de violão. Neste quesito Laurindo JR. merece todas as honras.


O REPERTÓRIO

A primeira apresentação teve um caráter mais popular. As três primeiras obras repletas de "idiomatismos" - efeitos e linguagens próprias do instrumento - de modo que aquele goiano mais arraigado com a canção sertaneja se sinta "dono" daquela sonoridade, sabe porque? A primeira obra realizada com a afinação da viola caipira (cebolão) com direito a muitas batidas e ponteios próprios da viola.

A segunda obra muito boa também, mas o que mais me agradou mesmo foi a terceira. !!!. Fenomenal!!! O compositor (amapaense) teve a grande sacada de promover a riqueza da cultura folclórica do Estado do Amapá. Esta, inicia-se ao som de caixa clara promovido com a junção das duas últimas cordas grossas do violão. Esta mesma linguagem ritmica é reorganizada em outra parte, ao som dos baixos. Ali o Laurindo Jr. deu show. Não é uma peça de grandes proporções, mas se desenvolve deliciosamente e tenho certeza que todos arrepiaram ao final e o "gostinho de quero mais reinou".
A primeira parte tem características melódicas e improvisativas, com uso de cromatismo, lembrando um pouco as características do choro. A segunda parte contrasta com arpejos e culmina imitando a "frequencia do tambor" ao som dos bordões. Também quero tocar.

A última apresentação do laurindo foi especial. Sua própria autoria. imitando a linguagem de João Sebastião Bach, ele passeou por diversas sonoridades ao violão de 13 cordas que ele mesmo idealizou e conseguiu concretizar o projeto através daquela escola famosa de lutheria amazonense.

Esta obra é uma imitação do estilo de Bach. Tem aquela abertura francesa, calma e envolvente, preparando para outra parte contrastante. Sou capaz de arriscar qual Prelúdio de qual suíte o compositor se inspirou. Até aí tudo bem. tudo certinho. Depois vem a surpresinha. O contraste não é o que eu esperava, algo movimentado, virtuosístico. Não. É algo transcedental mesmo, o autor conseguiu me tirar do planeta Terra por alguns minutos e quem esteve lá sabe o que estou tentando descrever.


Eu bati palmas de pé.

O reperta do Nícolas de Souza Barros foi super inspirado e bem selecionado. Ele conseguiu um material musical variado e não menos idiomático. Erudito e popular em sua totalidade. Ao término de sua primeira interpretação, gritei: BRAVOO!!! Não poderia ser diferente, estava ali um dos violonistas mais importantes das Américas. Um desbravador, uma sumidade. Sua primeira interpretação foi altamente importante, pois a obra em questão é desconhecida. Villa-Lobos escreveu aos dezessete aninhos de idade e não concuiu. Segundo Nícolas, ele concluiu os aproximadamente 10% do que faltava. Olha, parece que não teve outro dedo ali, o cara saca muito de Villa...
A obra mais gravada na atualidade é a Appassionata de Ronaldo Miranda (brasileiro). Isso mesmo gente, um brasileiro escreveu a obra de violão erudito mais tocada e gravada no mundo. E tem gente que nem sabe que o violão é altamente presente neste meio, menos ainda que o nosso humilde país em desenvolvimento produz figuras como Villa-Lobos e Ronaldo Miranda. Mas não foi uma boa performance. Teve seus momentos mágicos. Não é música para qualquer violonista se aventurar, bem como, não é obra musical para qualquer intérprete ... o Nícolas tem técnica, conhecimento e bagagem musical de sobra para isso, MAS não pegou na veia. Alguém abriu a porta, fez um barulho, ... , o cara não gostou e eu também não reagiria diferente. Não errou uma nota sequer, mas depois de ouvir Zanon e Edelton fazer sérias interpretações, mudo de assunto.
O lado "popular" de seu repérta, foi brilhante e surpreendeu até os mais refinados ouvidos presentes, ao som do violão de oito cordas do executante.
Grandes obras foram tocadas e se o recital não tivesse sido tão longo, eu juro que colocaria uma bela crítica a cada peça interpretada.


CURIOSIDADE


Nícolas de Souza Barros é artísticamente bisneto de Quincas Laranjeira, uma das primeiras figuras a ensinar o violão clássico no Brasil. Um pioneiro.

Quincas Laranjeiras - Antônio rebelo - Jodacil Damaceno e Turíbio Santos - Nícolas de Souza Barros.

Eu, Graciano Arantes, também sou bisneto (artístico) deste sujeito.


Quincas Laranjeiras - Antônio rebelo - Jodacil Damaceno e Turíbio Santos - Graciano Arantes.


O DUO


Muito bom!!!

"Nada mais belo que duas guitarras juntas". As obras são de altíssimo nível, verdadeiramente legais e empolgantes, cheias de batidas e inteligentes desenvolvimentos. Nível técnico mediano, o que proporciona dois artistas que não moram perto trabalharem relativamente pouco e tocarem juntos. Essa foi a sensação. Sabe aquele lance de fazer umas duas no final só pra não dizer que não tocou junto?
Mentira. Foi tão bom que estava digno de não piscar! Amei aquilo!

Parabéns aos violonistas, ao grande público presente e à nossa belíssima Goiânia, por mais este grande acontecimento. Fato este tão significante, de entrada franca e sem sequer uma rádio ou TV cobrindo o espetáculo. Ah, eles só falam das "micarê" qualquer coisa mesmo... deixa pra lá.


Depois de tudo que vi e ouvi, eu é que quero subir no palco.


Forte abraço aos que tiveram saco e tempo para ler este post.

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